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O Tabuleiro onde ninguém é inimigo para sempre

Por: Everson Felipe
Publicado em 27/5/2026
Reprodução

Quem olha de fora imagina que a política alagoana se divide em duas trincheiras bem demarcadas. Quem vive os bastidores sabe que o verdadeiro jogo é outro: aqui, adversários se abraçam no Congresso, aliados dividem o palanque presidencial e o segundo voto do eleitor vale mais que qualquer bandeira ideológica.

As duas vagas no Senado transformaram 2026 em um laboratório político raro. Diferente da maioria dos estados, onde o candidato precisa convencer o eleitor uma única vez, em Alagoas a disputa exige convencê-lo duas vezes — e, de preferência, sem parecer contraditório.

O resultado é um xadrez onde cada movimento carrega dupla intenção.

Um estado, dois Senados

A renovação simultânea de duas cadeiras no Senado cria um fenômeno que embaralha as certezas mais elementares da política: a fidelidade partidária nos municípios.

Prefeitos do interior, acostumados a alinhar seus redutos em torno de um único nome, agora se veem diante de um dilema prático. Um gestual de apoio ao senador A não impede — e muitas vezes exige — um aceno discreto ao senador B. O eleitor, por sua vez, entendeu a regra do jogo: um voto é de coração, o outro é de conveniência.

Essa dinâmica embaralha as pesquisas. Um candidato pode liderar com folga as intenções de voto para a primeira vaga e, ao mesmo tempo, disputar acirradamente a segunda. A geografia eleitoral de 2022, quando Renan Calheiros se elegeu com 48% dos votos válidos mas viu adversários ocuparem a outra cadeira, mostrou que a polarização nacional não anula a pragmática local.

A direita diante do espelho

O campo conservador chega a 2026 com uma vantagem e uma armadilha. A vantagem é numérica: o bolsonarismo fincou raízes profundas no estado, e a rejeição ao PT na capital e no agreste segue alta. A armadilha é humana: Arthur Lira e Alfredo Gaspar disputam o mesmo eleitorado, mas representam formas distintas de ser direita.

Lira construiu sua carreira na arte da costura política. Comandou a Câmara dos Deputados durante o governo Lula sem jamais abandonar o campo bolsonarista. É um equilibrista que fala ao mesmo tempo com o Planalto e com as bases antipetistas. Seu capital eleitoral está nas prefeituras que abasteceu com emendas e na imagem de quem "entrega".

Gaspar, ao contrário, fala a língua da militância. Seu nome cresceu associado a pautas de enfrentamento e à CPI do INSS, que o projetou nacionalmente. Não disputa com Lira quem tem mais prefeitos — disputa quem tem mais identidade com o eleitor que rejeita o sistema político tradicional.

O problema é que os dois precisam um do outro. Uma chapa com ambos poderia somar votos, mas o eleitor bolsonarista tende a escolher seu preferido na primeira vaga e migrar para outro perfil na segunda. A dobradinha, que no papel parece imbatível, na prática pode produzir um resultado inverso: a concentração de votos em um candidato e a dispersão do outro.

O silêncio estratégico de Renan

Enquanto a direita debate seu destino, Renan Calheiros observa. Aos 70 anos, dono da carreira mais longeva da política alagoana, ele conhece como ninguém a arte de deixar o tempo trabalhar a seu favor.

Sua força não está apenas nos prefeitos do MDB — estima-se que o partido controle perto de 80% das prefeituras —, mas na capacidade de se reposicionar conforme o vento. Em 2022, quando a polarização nacional chegou ao auge, Renan se colou à imagem de Lula e conseguiu arrastar votos petistas para sua candidatura. Em 2026, a estratégia se repete: enquanto seus adversários se degladiam pelo espólio bolsonarista, ele se apresenta como o nome capaz de unir o campo governista.

Há, no entanto, um ponto de vulnerabilidade: o desgaste na capital. Maceió, que concentra quase um terço do eleitorado alagoano, tem resistido ao nome de Renan nas últimas eleições. Seus adversários sabem disso e tentam transformar a eleição em um plebiscito sobre a velha política. A pergunta que ainda não tem resposta é se o interior será suficiente para compensar uma eventual derrota na cidade.

O governador que ninguém sabe se será candidato

No centro desse tabuleiro, uma peça permanece imóvel. João Henrique Caldas, o JHC, deixou a prefeitura de Maceió com índices de aprovação que qualquer postulante ao governo gostaria de exibir. Mas, em vez de anunciar sua candidatura, mudou de partido, se abrigou no PSDB e mergulhou em um silêncio que dura meses.

Esse silêncio não é omissão — é cálculo. JHC sabe que sua força eleitoral o transforma em fiador de qualquer palanque. Se subir no de Lula, arrasta consigo um eleitorado urbano que rejeita o PT. Se subir no de Bolsonaro, legitima a candidatura da direita com a marca de quem venceu na capital. Se optar pela reeleição ao Senado — há quem aposte nessa hipótese —, muda completamente a equação da disputa.

Enquanto JHC não se move, os outros jogadores esperam. Candidaturas ao governo não decolam porque dependem de saber de que lado estará o ex-prefeito. O vácuo é, ao mesmo tempo, estratégia e poder.

O Planalto que tudo observa

De Brasília, a disputa alagoana é acompanhada com lupa. Lula precisa de Renan Calheiros no Senado para manter a base de sustentação no Congresso, mas não pode hostilizar Arthur Lira, que presidiu a Câmara em seu governo e segue influente. A equação é delicada: apoiar um significa perder o outro, e o governo não quer perder nenhum.

Do outro lado, Jair Bolsonaro — mesmo inelegível — mantém seu nome como referência para o eleitorado conservador. Seu apoio a Lira e Gaspar é ambíguo, quase um incentivo para que resolvam entre si quem será o nome forte da direita. A ambiguidade, mais uma vez, é deliberada.

Alagoas virou um laboratório do que será o Brasil em 2026: um país onde as alianças nacionais não se traduzem automaticamente em alianças locais, onde o eleitor aprendeu a dividir seu voto e onde o silêncio de um único político pode ditar o ritmo de toda uma eleição.

No xadrez alagoano, ninguém é inimigo para sempre. Mas também ninguém é aliado por completo.

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